16 novembro 2009

Diário


Março 9


O Poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: "É preciso saber olhar..." E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...
E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso... E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou que os homens estavam tristes...E escreveu uns versos que começam desta maneira "O segredo é amar...".
Por tudo isto é que eu fiz a Semana da Poesia. Por tudo isto e porque de pequenino é que se torce o pepino. Por falta dela nas antologias escolares, ou só pela presença de Correias de Oliveira, Azevedos Castelo Branco e mais da mesma firma, é que os rapazes chegam a homens com uma má vontade à Poesia ou uma ignorância dela que confrangem um cristão. É preciso, subtilmente, deitar-lhes no sangue este veneno - não tanto para que gostem de versos ou saibam versos de cor, como para que olhem o mundo através da janela da Poesia, para que beijem tudo, graças a Deus, para que saibam olhar, para que reparem nas flores e nas ovelhas. Isto é que se quer que eles façam, sem respeito humano, pela vida fora. Digo "sem respeito humano", porque é fora de dúvida que a maior parte de nós, Portugueses, temos cá dentro um impulso que nos levaria a fazer tudo ou quase tudo que fazem os Poetas, se não fosse um receio de parecer menos viril. A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbricos, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas. Ó Portugueses, é tempo de torcer o pescoço ao respeito humano. Olhai que nós somos bons e talvez seja verdade que somos poetas - e isso não deve ser desprezado, mas antes manifestado. Começai a ser sinceros, deixai de ser irónicos, e vereis como tudo corre melhor e a vida tem outro sabor!
Eu não quero "impingir" versos aos meus alunos: quero abrir-lhes a janela da Poesia, para que não se dê tempo a que também entre neles o respeito humano. Ouvindo ou lendo versos, verão logo de princípio que é natural um homem amar as flores - e amarão as flores com naturalidade. É tão raro, entre nós, um homem dizer em voz alta que ama as flores (...).
Por tudo isto e porque de pequenino é que se torce o pepino, é que eu fiz a Semana da Poesia. Para começar, enchi uma aula de versos lidos por mim. Ao escolhê-los, fiz o possível por excluir coisas mórbidas ou tristes - o que é bem difícil de realizar com a nossa Poesia - e procurei trechos simples, de preferência descritivos, porque seriam de mais fácil compreensão. Em quase todos a nota dominante era o encantamento - ser Poeta, tinha eu pensado dizer-lhes - é estar encantado ou desencantado e contá-lo com palavras que pareçam música. E a todos os impunha a beleza formal, a que eu olhei também: as coisas boas têm de ser ditas com bons modos e esta aula era uma primeira oferta que eu gostava que fosse aceite.

SEBASTIÃO DA GAMA
in DIÁRIO

10 novembro 2009

Jogo da Macaca

Tocou o despertador. Seis e quarenta e cinco… Noite ainda. Escuridão no pequeno quarto. Sono. Preguiça. Dolência. Demasiada escuridão lá fora. Mais uma vez, não conseguira adiantar-se ao nascer-do-sol. O sol nascia sempre depois dela. A noite, essa, quando ela…
Demorou ainda. Encolheu-se e apreciou, mais um pouco, o torpor morno da cama larga. Sono agitado, turbulento, cansativo, desgastante… Olhos fechados, apenas… No escuro do quarto, as noites eram dias. Olhos fechados. Dias inteiros. E os dias, esses, por vezes noite. Saiu da cama, bela adormecida ainda.
Despiu, desajeitada, o pijama. Flores espalhadas pelo chão. Retalho ínfimo de Primavera…
Olhou de soslaio o espelho e parou por instantes. Olheiras. Eternas. Perpétuas. E rugas. Fininhas. Rugas.
A água caiu sobre o corpo ainda quente de cama e sono. Chuva tropical… Tépida cascata nos meandros da selva… Olhos fechados. O poder de fazer cessar a chuva e a torrente da cascata. Secou o corpo com o branco macio da toalha de algodão. Nuvem. Neve. Fumo. Neve no chão frio. Gotas de chuva nas costas. Um pomar de laranjeiras espalhado pelo corpo num gesto automático e inconsciente.
O espelho, de novo. Creme. Base. Rouge. Sombra. Eyeliner. Olheiras. Eternas. E rugas. Fininhas. Rugas. Uma por cada lágrima. Uma por cada sorriso. Uma por cada alegria. Uma por cada desgosto. Uma por cada aventura. Uma por cada amor. Cada uma dela. Todas dela… Ansiadas. Desejadas. Dela, todas.
Meias pretas. Vestido preto. Sapatos pretos. Baton. Casaco? Vermelho. Cravo. Papoila. Sangue. Rubi. Sangue. Vida.
Abriu e fechou a porta do frigorífico. Leite. Simples. Frio. De um gole. E café. Forte, curto, amargo. Saiu.
Acendeu o vermelho. Era para peões. Peças de xadrez em história aos quadradinhos. Verde. Calcou o acelerador. Seguiu. Acendeu um cigarro distraído e sorveu-o lentamente… De vidro aberto. O ruído da cidade lá fora. O rádio. Passou pelos lugares do costume. Deixou abandonado lugar de estacionamento habitual. Seguiu. Seguiu em frente. Alheia à cidade que fervilhava de cheiros, cores, ruídos… Em direcção ao mar…
O mar. Imenso azul. Misterioso. Infinito. Lar de sereias e monstros marinhos. Lendas. Mitos. Marinheiros e piratas. Castelos de areia. Melodias de búzios. Estrelas sem luz. Conchas. E o murmúrio embalador das ondas na areia macia da praia. E aquele cheiro salgado e fresco. O odor de terras longínquas e desconhecidas. De ilhas desertas. De glaciares montanhas brancas mundos de fadas e anjos… Sapatos pretos perdidos na areia. Os pés descalços na frescura das ondas. O sabor a sal nas mãos, nos lábios… O corpo enrolado numa vaga. A areia a picar-lhe a pele. Uma força a seduzi-la, a levá-la. E o sal a entrar-lhe na boca, nos olhos, nos poros da pele… Sabor de vida. Sabor de morte. Um turbilhão de histórias. De memórias. De desejos. De anseios. Lá atrás, a cidade que já não via nem ouvia. Só o mar… O mar e os seus pensamentos e toda a sua vida passada… Mais do que isso, silêncio… Um silêncio devastador, reparador, assustador, avassalador… No meio das vagas, do sal, do azul profundo…
Um ruído longínquo entrou-lhe, mansamente, pelos ouvidos. Um grito. Um choro. Um gemido. Um suspiro… Um som que a ergueu do meio das ondas e lhe secou a pele e as lágrimas de sal. Uma voz que a despertou daquele sonho negro e azul. E foi-se o sal, a água, a areia, o azul, o ruído monótono e seco da cidade.
- Mãe…
E o mundo inteiro a entrar-lhe pelo quarto dentro. Todos os raios de sol ali. Todas as fases da lua que era sua. O mar inteiro a refrescar-lhe a alma…
-Mãe…
Acolheu-a no pequeno jardim do seu pijama-Primavera de flores. Afagou-lhe o cabelo e beijou-a ternamente num abraço de sol e sal e mar e estrelas e aberto luar. E ficaram as duas enroscadas num beijo quente de fusão perfeita.
- Sim, meu amor…
- Ensinas-me a jogar à macaca, mãe?
-Ensino, amor. Se ainda me lembrar…
E no calor terno do ninho, jogaram as duas... Salto, salto, salto, volta, salto, salto…
Mar, ondas, espuma branca, areia macia, sal no corpo, nas mãos, nos lábios, nos olhos. Sal na vida. Sal da vida.
Salto, salto, salto, volta, salto, salto, volta…
Mulher menina. Menina mulher. Mulher menina mãe.

Dina Cruz

05 novembro 2009

Prémio BLOG INSTIGANTE

Foi com agrado e orgulho que vi distinguido o Feminino Singular com o prémio "Blog Instigante", da parte do "Histórico-Filosóficas".
O selo destina-se a premiar, e cito:
“ Blogs que, além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.”
Sinto-me extremamente agradada com esta oferta e deixo o meu agradecimento ao autor de "Histórico-Filosóficas", um blog verdadeiramente INSTIGANTE.
Bom, também é pedido que o reenvie a outros sete blogs, e é isso que farei, convicto que é esta a parte mais dificil pois muitos dos que não serão designados mereceriam ser escolhidos:

http://cusdejudas.blogspot.com/

http://ericamachado-drika.blogspot.com/

http://poetadany.blogspot.com/

http://pesponteando.blogspot.com/

http://2beloste.blogspot.com/

http://poemar-te.blogspot.com/

http://yeacklemon.blogspot.com/

27 outubro 2009

Diálogo solto na berma dos dias...

Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

- É assim que começa a morte.
- Encara-a como uma vida alternativa um outro caminho um.

- É assim que se dá início à vida vazia de coisas grandiosas.
- Na vida vazia dela, por dentro dela dessa vida vazia outros mundos outros sonhos por dentro da vida outra vida… Sabias? Por dentro da vida outra vida. Mudo por ti. Mudo para ti. Mudo para que tu saibas…

- É assim que nos fazemos parte do rebanho, do bando, da multidão.
- Desprezas o leão e essa é a tua mais temida faceta. A que eu mais gosto.

- É assim que deixamos de nos pertencer.
- Ninguém deixa de se pertencer – apenas escoiceados e vilipendiados… mas não faz mal… tens toda a razão do mundo… deve é faltar-te mundo… outra vida… escolhe outra vida…

- É assim que alguém nos possui e nos encarcera a alma.
- Não há machado que corte a raiz do pensamento…

- É assim que deixamos de ser gente a sério, com ideias e ideais, com pulsações e inquietudes, com revoltas e cansaços…
- Não escolhas outra vida não traias a vida quer és! Não sejas de outro mundo… não queiras ser outra flor…

- É assim que nos entregamos ao desaire e às anestesias dos outros… daninhos e corrosivos.
- Sabes… não sei se valerá a pena enfrentar os outros daninhos e corrosivos – “para quê estar sempre a mostrar ao parvo que é parvo”.

- É assim que tornamos pálida, a fraca alma que deixámos de possuir e que entregámos a um demónio devastador e guloso de sonhos…
- Há um exército de pálidos e de enxovalhados. Esses são os mortos horríveis. Há vida para além da morte. Há vida além da noite. Já uma vez te chamei flor acobreada de luz…

Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Quantas vezes não acordou com o raiar da manhã e se entregou à frescura do orvalho num abraço fraterno com a Natureza?
Quantas vezes não se deixou embalar pelo vento fresco e lenitivo de uma tarde quente de verão, na loira seara?
Quantas vezes não se deixou emprenhar pelo cheiro quente da terra acabada de beber a água das primeiras chuvas?
Quantas vezes se ofereceu inteiro aos raios de luar em noites cristalinas e plenas de estrelas?
Quantas vezes ofereceu o seu doce sorriso às flores ao sol às árvores do bosque cerrado?

E agora…
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Fechou-se.
Encolheu-se.
Enrolou-se.
Apagou-se.
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.


Para além da morte morte há uma outra morte. A morte em vida. É do cunho da renúncia! É do cunho da inveja. É do cunho da ingratidão. Sabe ao que sabe a solidão. Não terás nunca direito a uma morte dessas. Se há sempre uma vida há sempre uma luta. Há sempre um campo de feno e uma casa por construir. E um livro para escrever. Há sempre uma linha mais para onde possas correr. Ou andar. Saltitando como Mariana… Serás sempre Mariana… Enrolada em cor… Tímida e temida. Texto inacabado.


Dina Cruz e Nuno Monteiro

25 outubro 2009

Baobá mulher!


De África chegam-me vozes de terra e de calor… De tristeza e fome… de seca e de angústia… de sonho e solidão…

Baobá mulher chora de pena!
Chora de dor!
Chora de luto.
Do luto negro e fundo de quem perde, um a um, seus filhos, seus homens, seus irmãos…

Nas suas curvas tortas e retortas, esconde o medo e ânsia, a sanzala e o xicote, o suor e o velho tronco, o minino e o pó do terreiro, a carapinha e os búzios, o batuque e a catinga...
E oculta a força e a coragem.
Esconde a savana e seus leões…
E Alimenta!

O Pequeno Príncipe que não tema a baobá… O seu asteróide está seguro. No seu asteróide estará seguro.
A baobá não se dá longe da terra que é a sua, que é o seu leito e sua imensidão e seu túmulo…

É mágica a baobá mulher!
Lua de poetas e eremitas, habita neles em lendas e poemas de flores perenes, de folhas feiticeiras, de frutos curativos, de troncos vivos e húmidos, de elixires de juventude e de vida…

No meio da planície, espalha-se gorda e dolente pelo capim doirado… enrosca-se em contornos fantasmagóricos de cabeleira desalinhada pelo vento quente, espraia-se muda, entrega-se virgem, despede-se, ousada e desejada.

Numa noite à sua escolha, coberta por um lençol de brancas estrelas e sob a luz de uma lua opaca como leite, parirá!
Abrir-se-á de matizes e de aromas insondáveis. Explodirá de vida, em sufoco de saudade e de desejo.
E será flores...
Tantas flores quantas estrelas há no céu.
E virão beber-lhe o néctar nocturno, os seres mais escuros da savana,
os que, cegos, lhe sentiram, à distância o odor,
os que, surdos, lhe ouviram os gemidos e os ais,
os que mudos, quererão cantar-lhe a liberdade e a vastidão…

E, no mar que tem dentro do peito, deixará navegar o universo inteiro…
E matará a sede a quantos se aproximem.
E curará os males mais infames.
E será lira e batuque e ocarina…
E será colher e taça e alimento,
E será mãe e mulher e árvore
E será útero e colo e seio e ventre
E dança e tela e escultura e poesia…
Será como é... Será o que é... Baobá mulher!

Dina Cruz

20 outubro 2009

Variações sobre O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO de Alexandre O'Neill

Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.
Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).

Manuel Alegre

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O'Neill

15 outubro 2009

Vamos dormir, Mãe...


Porque sempre haverá meninos pendentes na beira da ponte deitando suas lágrimas ao vento, escrevo agora. Grito. Sufoco. Blasfemo. Escarneço.

Não estivessem as estrelas no céu na companhia da lua, e arrancaria de mim um grito de nojo, e cuspiria venenos sobre a boca pérfida dos despojados de vida, num urro! Num coice!

Mas há estrelas no céu… e luares lenitivos de camélia branca… E homens que são meninos de olhos esbugalhados e ânsias desmedidas e sonhos sonhados e por sonhar…

Mãe, sufragada de trabalho, ainda tenho que ouvir rugir esse incontrolável patronato…

Não chores, menino, as minhas lágrimas…
Lágrimas são dores, são flores, são pedaços d’alma que se evolam na distância dos olhares… são sorrisos húmidos com sabor a sal e sol… são do homem! São do Homem!
Sossega e dorme. Tens, no meu colo, todas as distâncias, todos os lugares, todas as estrelas do mundo… é meu colo, teu berço e teu segredo. Teu abrigo e teu desejado cárcere.
Sossega e dorme. Sonha.

E quando o vento tiver secado as lágrimas que choras e te alçares ao vento, será para voares em sonho alado de liberdade etérea.

O teu mundo não é esse teu patrão, Mãe! A tua vida não é a tua produção, Mãe!
Que não te arda o peito, a não ser por mim, Mãe.
Por ti, Mãe!
Por nós!

PORQUE:

A fábrica é uma pança gorda, mas é um meio.
A fábrica não é um fim.
A fábrica é uma ínfima parte… uma insignificante parte…
A fábrica morrerá de fome! Morrerá! De fome! Morrerá!

E tu, meu filho.
E eu, meu filho.
Um quarto. Um chão. Uma vela.
Um menino no berço. Um sorriso. Uma flor. Uma estrela.
O luar escancarado que entra pela janela e pela alma dentro.
Um beijo. Uma carícia.
Uma cantiga antiga relembrada e aquecida pela memória de infâncias olorosas de nuances doces e coloridas
Um cheiro quente de terra molhada que nos entra nos poros e nos enche os sentidos.
Uma gota de água a escorrer na vidraça. Uma lágrima-pétala a escorrer pela face.
Um sorriso doce a escorrer pelos lábios. Um amor infindo que escorre de mim e se espalha, pelo chão, à luz da vela, à tua luz, na tua luz…

Sombras trémulas de pequeninos fantasmas longínquos esvaem-se em finos fios de fumo fugaz! E tu… E eu…

Ergo os olhos para a montanha e oferece-se-me o horizonte claro e infindo de sonhos por cumprir… para cumprir!
Voarei! Voaremos sempre! Juntos! Voaremos enquanto deixarmos a luz irromper por nós dentro como a toada do gongo!

E posso tudo contra a faca que corta a morte… que corta de morte!
Porque sou mãe.
Porque sou mãe e guerrilheira!
Porque sou mãe e madrasta e amante e companheira e presa e predadora e abutre e gaivota e gume de adaga e língua de serpente e caixa-de-música e gongo retumbante e veneno mortal e antídoto secreto e mulher…
E mulher!
E mulher!
Que engana Deus e o Diabo!
Que cala dores de parto, de desvaire, de ciúme, de paixão, de orgasmo…
Que rasga caminhos por amores singulares, que se deita na areia da praia para ser beijada pelo sol ardente, que se despe de pudores para se deixar iluminar pela branca lua, que se abre inteira ao amor do seu homem, ao amor dos seus filhos, em absoluta entrega…

E que se esventra, se revolve, regurgita, escarra, espezinha, amachuca, esfaqueia, dilacera, escarnece, cospe, fulmina, destrói…

Ai de quem ousar macular esse quarto! Esse chão! Essa vela… Essa luz! Essa tua luz!

Então, Mãe… Vamos dormir?

Vamos, meu filho! Vamos, que é noite já.

29 setembro 2009

Obrigada, Nuno...


Por me despertares

do sono dolente da inércia

Por me libertares
das amarras do tempo
dos braços de um Morfeu

decadente e moribundo

Por me abrires a janela...

Vou.
Voo.

Dina Cruz

Pedido de desculpas


Peço desculpa aos que têm aberto,

em vão,
esta janela,
esperando voos...

Mas não tenho tido tempo...
Não me tenho dado tempo...
Para abrir as asas
E visitar essas paragens secretas
feitas de palavras
que são gritos!
que são beijos!

Dina Cruz

26 junho 2009

Maria Madalena

Reina agora o silêncio. E a penumbra. E a solidão. E o nojo. E a inércia…
Reina agora, como antes, o sabor salgado dos suores moles e lânguidos de um Verão que o não é, dos corpos desnudos e ciosos de beijos e carícias que há muito anseiam sem alcançar. E os lábios, secos e gretados de desejos por cumprir, esboçam sorrisos cinzentos de perplexo vazio. E os filhos que dormem porque sim. Porque assim tem de ser. Porque esta não é a vida. Porque esta é a p*** alternativa que lhes resta… que lhes deixam restar…
No charco, tudo se mantém inalterável como num quadro de Van Gogh. Escuro. Frio. Mole. Azedo. Podre. Labutam almas descalças e nuas de vocábulos. Silenciosas e moles como relógios de Dali. Pelos longos corredores pálidos, semeiam-se traições e enredos dignos de novelas rocambolescas, de romances de um Kafka decrépito e insano.
Não chove lá fora. Mas chove incessantemente nos teus olhos cansados. Cansados dos silêncios. Pior! Da ausência de amor nas palavras que te dizem. Da ausência de verdade nos rosários que desfiam. Do vazio das frases vazias.
No charco não há vida. Há lodo! E nojo. E escuridão.
E os voos das aves.
E o coaxar das rãs!
E o calor invade cada espaço, cada gesto, cada poro aberto do teu corpo que se cumpre no momento em que abandonas o charco negro. E caem as pedras! Os abutres, Maria Madalena! Aves que rastejam e anseiam alimentar-se das verdadeiras aves livres que sabem e querem voar. Aves que aprisionam vontades, que sugam desejos e sorrisos, que devoram almas brancas para as escurecer.
Voa, Maria Madalena! Voa e vive! Perdoou-te Cristo. Hão-de perdoar-te também. Ou não… Que longe estão de ser perfeitas essas aves negras…
Não leva ninguém a mal. São todas infelizes. Todas incompletas.
Não recebes laivo algum de lábios!



Dina Cruz

Obrigada "Histórico-Filosóficas"

Foi com prazer e orgulho que recebi o prémio "Blog Pensador" do "Histórico-Filosóficas"! Obrigada, Sérgio.

04 junho 2009

Carlos Nejar, poeta e romancista, dramaturgo e crítico brasileiro afirmou, e passo a citar, “a escrita é uma necessidade física, urgente, de absorver a realidade e mudá-la. Assumir a responsabilidade de levar uma mensagem ao portador. E não importam os obstáculos do caminho, a mensagem chegará. Escrever é saber cortar e fazer explodir os silêncios”
Mas a escrita só é valida se tiver leitores!
A triste realidade é que a leitura, em termos genéricos, está marginalizada porque não dá tanto nas vistas como um automóvel de último modelo! Quando se fala de poesia, a situação agudiza-se, já que o texto exige um esforço que a maioria dos seres não está para lhe dispensar. Já Camões se queixava no século XVI, e passo a citar:

Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo, que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado verso e rima
Porque quem não sabe arte não na estima.

E continua na estrofe seguinte:

Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudes e de engenho e tão remisso,
Que a minutos lhe dá pouco ou nada disso.
Os Lusíadas, Canto V

Lamentável é que assim seja, pois o poema é uma pérola da essência humana, que cada vez é menos valorizada e cada vez mais precisa de ser compreendida entronizada.
No dizer de Carlos Nejar, a poesia é uma solidão que deu certo. Uma solidão activa e militante. Porque a solidão é cósmica. E a solidão não acaba nunca.
Poesia prende-se, pois, com pureza original, com uma visão depuradora do mundo imundo em que vivemos. O poeta tem o dever de denunciar as injustiças e atrocidades sociais; tem obrigação de contribuir para a cura da cegueira em que se move erraticamente a humanidade, de acordo com o que Torga escreveu: o poeta é como um farol. Dá chicotadas de luz na escuridão.
O poeta tem o direito de ser livre. Só assim pode ser isento na visão que transmite quando escreve; só em liberdade pode assumir o compromisso da luta por um mundo melhor e mais justo.
A poesia, através das eras, tem sido a arma mais resistente e persistente numa luta sem sangue, mas com ideias que têm provocado profundas e amplas transformações de mentalidades. Mas há ainda muito para fazer…
Carlos Nejar, de novo, afirma que a poesia é a arte da mudança. Recusa amarras ou prisões.
Foi com muito agrado e com justificada curiosidade que recebi e fiz a minha leitura do livro elementos, da autoria de Dina Cruz e de Nuno Monteiro.
Não se pretende com este trabalho apresentar uma análise científica, nem tão pouco uma crítica literária academicista que seria forçosamente castradora dos sentidos intrínsecos do poema.
Cada poema é uma pérola na sua integridade desafiante que se mostra e nos fascina porque é assim, tal qual se mostra, assumindo um brilho novo sempre que se muda o ângulo de visão.
É por isso que não se pode impor uma leitura, sob pena de reduzir uma obra de arte a um arquétipo frio, desnudo, inerte, inútil.
A sensação de belo deve pertencer a quem frui o poema, lendo-o, saboreando as vogais e as consoantes e as aliterações e as assonâncias e os ritmos e as insinuações e a vida que pulsa no poema sempre que temos a alma disponível para conversar com ele. Sim porque o poema é um ser vivo, mas preguiçoso, expressamente preguiçoso…o que ele pretende, sem o dizer, é que nos apercebamos de que ele existe, mesmo para além de nós; o que ele pretende é que lhe prestemos atenção, ora respeitadora, ora ousada, virando-o do avesso, se necessário for, para que consigamos deslumbrar-nos com aquilo que subjaz às palavras e até com a cumplicidade que entre elas existe.
Um poema é as palavras a falarem umas com as outras, mostrando aquilo que ocultam e ocultando aquilo que mostram; as palavras que, juntas, se carregam de sentidos e de memórias que nos fazem ver o invisível; as palavras que, num festival de magia, nos revelam mundos, vivências, emoções que nos fascinam e nos alertam para uma realidade renovada.

Abordagem da obra:

O título: em qualquer obra o título é muito importante e pode assumir-se, muitas vezes, como o responsável pela atracção ou repulsa em relação ao livro. Também é verdade que há títulos que não deveriam ter livro e livros que não precisam de título. A novela menina e moça faz esquecer o título saudades.
O título pode remeter para o espaço onde decorre a acção: Viagens na minha terra; a Cidade e as Serras; Mau tempo no Canal. Pode remeter para o tempo da acção: 1984, de George Orwell. Pode condensar o assunto da obra: Amor de Perdição. Pode referir a personagem principal: Eurico o presbítero; os Maias; Os Lusíadas. Pode ser simbólico: Felizmente há luar!
Elementos, pois é certo que se trata de poesia elemental. Quase todos os poemas apresentam explicitamente um dos quatro elementos essenciais. O próprio subtítulo de cada uma das partes para isso remete: Terra de mim, escreve a Dina; o fogo e a água, regista o Nuno. Não falta o ar!
Comecemos pela referência à poesia da Dina:
Trata-se de uma poesia de carácter intimista, com o sujeito poético a auto-analisar-se e a exteriorizar o que lhe vai na alma. É uma poesia dos sentidos e das sensações. Tal como Orfeu desceu aos infernos para recuperar a sua amada, Eurídice, a poetisa desce ao mais fundo de si em busca da poesia: desço ao fundo de mim/e arrumo/em pensamentos desordenados/as vivências impolutas/Dos acasos propositados.
Por vezes fica angustiada, envergonhada, com o que encontra: em mim/mergulhei/profundamente/…/no armário das vergonhas/descobri/sorrisos secos/…abraços amargos/…/estilhaços/retalhos/pecados de mim.
Poesia do eu que se procura, se analisa, se expõe numa simbiose marcante com o tempo, o espaço, os elementos.
Mas também poesia do onírico que leva o poeta até imprevisíveis limites, passando “além do Bojador”, penosamente , para conquistar/as nuvens/o céu/o sol.
Poesia arrancada à solidão e à escuridão, ambientes propícios à criação: Só/na escuridão/no silêncio/…/só/no plaino frio/…/no segredo das batalhas que travo em mim e levam à consciencialização da necessidade de intervir socialmente, gritando: fraco é o sol/que não aquece/…fraca é a palavra/que soa alto/mas não se faz ouvir/…/mas não se quer ouvir…
Poesia, ora eufórica, quando escreve: E há música/e cores/ e vida/em mim…ora assumindo um pendor disfórico, um acentuado desencanto: Houvesse estrelas na noite/e teríamos esperança no futuro. Tal como na vida das gentes, altos e baixos; luz e trevas ocupam, à vez, a alma da poetisa: Dias há/em que esvoaçam/em mim/borboletas de luz/…/noutros/corvos soturnos/ me cegam de negro.
A magia da família, a esperança colocada num nome de criança ressaltam como lenitivos para as angústias do dia-a-dia atribulado: Maria: Trazes a madrugada nos olhos/ e a claridade da lua na tua voz; ou Beatriz: És quem/num beijo/me enche de arco-íris ou Porto de Abrigo: É no teu olhar/que me escondo/que me aqueço/que me abrigo/…/é em ti/meu porto
O arranjo gráfico dos textos privilegia a verticalidade, onde as estrofes heteromórficas, com versos heterométricos, extravasam o tumulto interior de quem, descendo ao mais fundo de si, encontra profundas dissonâncias.
A frequente ausência de pontuação favorece a pluralidade/liberdade, mas também a responsabilidade de leituras, ao mesmo tempo que aproxima a linguagem do pensamento e das emoções. Por outro lado, pode ser entendida como a obsessão de preservar a unidade que a pontuação não favorecece.
Enquanto que os poemas da Dina evidenciam uma preocupação com o interior do sujeito poético, exteriorizando-o, os poemas do Nuno mostram uma grande preocupação com a realidade exterior, que o poeta interioriza e sobre a qual reflecte. É como um arauto dos gritos da Natureza, mas também do Homem, das suas grandezas e das suas misérias.
Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.
Estas afirmações de Sophia de Mello Breyner Andresen podem verificar-se nos poemas do Nuno quando escreve: Canto/a beleza do bater das asas/as ondas do mar/…/o raio de luz/…a terra inteira de quem tu és filha.
O poeta ora se mostra fascinado com a beleza do mundo, escrevendo: dentro de ti/descubro os heróis do vento que te impelem por esse mar/os dourados faróis por onde navegas/as frágeis noites/ e as cálidas madrugadas; ora se sente desencantado com o comportamento humano, lamentando-se: os homens julgam-se donos de tudo/até das estrelas; ora se mostra desolado com a actualidade violenta dos desempregados, denunciando: Foi um alvoroço/quando lá entrou o demónio/e lhe disse que já não tinha emprego/ A mulher chorou/os amigos fugiram/e entretanto chegou a fome/nos olhos baços das crianças. É certo Sophia, Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. O poeta angustia-se com as injustiças comportamentais de uma sociedade decadente, degenerada, que não trata dignamente nem as crianças nem os idosos: Até quando/ Chorarão as pedras pelos pobres meninos arrastados pelo gelo/ou verter-se-ão as águas pelos infames futuros dos nossos velhos ao abandono.
O poeta canta também a Solidariedade e o Amor cósmico: cheguei de noite e bati à porta tão ao de leve/como um sussurro ou uma paleta de sons saídos da floresta/…/O homem da casa ergueu a taça e cortou a broa/lendas de linho em cima da mesa e a porta aberta/ e tu que nos trazes?/…/Todas as flores do Alentejo!/os copos encheram-se com o vinho e/os miúdos de faces coradas/pegaram as flores e foram distribuí-las pelas outras casas.
A noite metafórica, símbolo do desconhecido, assume uma importância criadora, genesíaca, reveladora. É no atro da noite escura que mais se sente a necessidade da luz, do conhecimento. É no seio da noite que começa a gerar-se a ânsia de um novo dia, que deve ser vivido em pleno. Por isso o poeta escreve: Foi em meio da noite que finalmente compreendeu/que é impossível viver sem olhar/sem sentir/sem cheirar todos os aromas que vivem ao nosso lado. (Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem.)
Remata a obra com um apelo ao regresso à pureza original, ao mito do bom selvagem de que fala Jean Jacques Rousseau, o tal que “Deus criou e pôs num paraíso de delícias; voltou a criá-lo a sociedade e pô-lo num inferno de tolices”, parafraseando Garret em Viagens na minha terra. Escreve, pois, o poeta: Cospe toda a parcimónia e avizinha-te de mim/…/despe-te Rosa e juntos / caminharemos pela aurora do outro mundo/seremos bandidos e proscritos vivendo das raízes e das folhas/…/regurgitaremos da vida tudo quanto não importe / e dormirás ao relento bebendo estrelas e engolindo mundos.
Concluo, dizendo que a poesia da Dina exterioriza o seu interior em intensos poemas, marcados pela verticalidade, de ritmo rápido e sentido.
A poesia do Nuno interioriza o exterior que derrama depois em poemas mais extensos, onde predomina a horizontalidade do verso longo, pensado, depois de sentido.
Estamos perante poesia autêntica, pois os poetas expõem ideias e sentimentos, servindo-se de padrões formais que sobrevalorizam a sonoridade e alcançam a máxima intensidade expressiva num espaço mínimo. O discurso poético concentra-se numa série de signos e sinais linguísticos convencionais que abrangem vários níveis de significado.
De Elementos brota poesia autêntica, aquela que nunca fenece.
Cabe a cada leitor investir a sua quota-parte, no sentido de descodificar mensagens implícitas.

27 maio 2009

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia
Recusa das imagens evidentes

Rosa que só tens nexo
Fora da tua imagem:
Aqui és só reflexo
Do universo unido
No instante florido
Que ofereces
aos que te olham,

Sem te ver,
de passagem.


Natália Correia
Do sentimento trágico da vida


Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia




Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte



Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"
Não ser

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
Sem nos dar braços para os alcançar?!...

Florbela Espanca
Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!


Florbela Espanca

19 maio 2009

Há no teu olhar
Um não sei quê que me angustia

Há no teu olhar
Um sabor agreste a dor e fel
Que te não conhecia

Há no teu
olhar
Um desalento austero
Que se não desvanece no sorriso

Há no teu olhar
Uma praia
deserta de areais

Uma montanha
ausente de tojos e fragas

Um pomar de laranjeiras
por plantar


Há no teu olhar
Uma ausência total de sentir
Uma solidão repleta de desencontros
Um silêncio cego de gritos abafados
Um luto negro de passados por passar

Um adeus a ti…

Dina Cruz



30 março 2009

Quando puderes
Só quando puderes
Só só quando puderes
Podendo
Não te esqueças
Mostra aos outros a rosa de que és feita
A rosa vermelha que ostentavas...
A tua vida
Toda a tua relíquia
Só que não pode estar embrenhada em escuro
Porque tu és luz...embora de tez morena
A rosa
Essa rosa
Esse vento...

Nuno Monteiro

29 março 2009


Lançamento do livro "Elementos" 20 de Março Livraria Bertrand, em Vila Real


“Terra em Mim” é um pequeno retrato daquilo que é para mim a vida: a bênção do despertar em cada manhã, a grandiosidade das coisas simples que por vezes descuramos, na azáfama da correria quotidiana, a beleza que se impõe em cada instante, no que a Natureza nos oferece de melhor, a alegria de viver todos os dias com todos os sentidos despertos e com a alma disponível e aberta à contemplação. Mas é mais…
É também a vontade de dizer-vos que é preciso, recolher, no mais ínfimo momento, na mais simples palavra, na mais nua das situações, a verdade de cada um de nós. E só somos verdadeiros, se não formos oponentes de nós mesmos, se, na história das nossas vidas, não deixarmos que nos embarguem a voz, o coração e, sobretudo, o pensamento… Não tenho ilusões pueris, que já não tenho idade para isso, porque a realidade é crua e só se deixa consumir assim mesmo… Por isso sei que é impossível sermos um só, sempre, e em cada momento. A maior parte do tempo, temos de ser outros, ou, pelo menos, não sermos nós mesmos de verdade… Vivemos num mundo em que o ter supera o ser, um mundo de faz-de-conta em que fazemos de conta que somos, temos, fazemos e pensamos coisas que, intimamente, sabemos que não somos, não temos, não fazemos, nem pensamos realmente. Mas fazemos de conta… Porque é útil, porque é prático, porque é necessário, porque é correcto, porque nos é exigido, porque tem de ser assim… Porque não vivemos sós. Porque não somos sós. Porque vivemos e temos de ser como e com os outros… É neste ser não sendo, que nos traímos, que traímos a verdade, a nossa verdade, que traímos a terra que é sempre uma… e que traímos os outros, que nos julgam com as provas que lhes damos e que não são, nem de perto nem de longe, as que fazem de nós um ser só, único, uno… É desta miscelânea de “eus” que não são eu, que nasce o grito de revolta e de descontentamento com a vida que se me impõe, a cada instante… E é essa multiplicação de faces que gostaria de não ter, que gostaria de não dar e de não receber, de cada um dos outros que, como eu, se traem no que são não sendo... Deixo-vos, por isso, e porque, como disse, não quero maçar-vos, com apenas um poema que é um hino a essa ausência de verdade, em todos nós. O resto, reservo à vossa leitura do “Elementos – Terra em Mim”:


Dina Cruz

02 março 2009

Lançamento do livro "Elementos"

Dois autores versejam sobre memórias dos sentidos...


Dina Cruz
e Nuno Monteiro têm o prazer de vos convidar para o lançamento do livro "Elementos", no dia 20 de Março de 2009, às 21 horas e 30 minutos, na Livraria Bertrand no Centro Comercial Dolce Vita Douro, em Vila Real.


"Terra em Mim", de Dina Cruz

Arrumar palavras é não ter segredos e enfeitar de coisas boas versos de alma e força das frases.
Passamos a não estar sós...
Sinto-me em Mim, sou devolvida, embalada e renascida, mergulhando nesta ausência de nada.


"O Fogo e a Água", de Nuno Monteiro

Dançam as palavras numa nostalgia da Terra, numa clemência do Fogo, trazendo até quem as lê a leveza e estremecimento de cada um dos Seres Humanos.

Memórias? Sim...
Cada poema voa connosco
e traz-nos de volta às sensações, ao elemento único,
passando a chover dentro de nós.

16 fevereiro 2009

Há várias noites que não vejo a Lua

Há várias noites que não vejo a lua… ou porque a noite a esconde, ou porque eu cerro as cortinas e a não deixo entrar pela vidraça da janela do meu quarto.
Dantes, eu achava que a lua era a eterna companheira das noites… das minhas noites, pelo menos… Que sem ela, apenas o sol reinaria em toda a sua sumptuosidade… Pensava que havia sido ela que, para brilhar lá no alto, fizera a escuridão e o vazio da noite, para poder mostrar-se em todo o seu esplendor e volúpia.
Infantil engano o meu…
Descobri, há pouco, que afinal, há noites sem lua. Há noites em que o luar não ilumina o mundo, nem os meus pensamentos.
Descobri também, que apesar de não haver lua, eles continuam lá, os meus sonhos e os meus pensamentos, tal como quando aquela luz branca e opaca como uma camélia, me fazia pensar que os inspirava e fazia crescer e fervilhar na minha alma.
É mentirosa, a lua… Enganadora e sinuosa como uma estrada de montanha em que, ao menor descuido, nos mostra um despenhadeiro oculto onde nos afundamos num mergulho de azul e vazio… Ilumina-nos o olhar apenas para nos fazer sentir que é dona do mundo inteiro, mas descobrirmos, logo a seguir que, afinal, sem ela, tudo mantém o seu rumo eterno e constante, ainda que sem a sua mágica presença.
Hoje, é mais uma dessas noites em que no azul-escuro da noite ela não reina, nem espalha o seu mistério. Mais uma noite em que, olhando o céu através do olhar frio do dia que passou, me convenço de que ela não é o lugar oculto de segredos insondáveis e distantes que eu pensava que era, nem a quimera de poetas ou amantes. É, nada mais, nada menos, que mais um desses planetas distantes que sonhamos alcançar quando somos crianças cheias de sonhos, ou quando por momentos, nos deixamos sê-lo ainda, apesar do peso nos ombros e das marcas do tempo em redor dos olhos cansados…
Não sei se voltarei a vê-la ou a tê-la nos meus sonhos, ou na minha vidraça. Quem sabe… Talvez quando me permitir ser de novo menina de tenra idade em momentos de devaneio pueril, ou quando precisar dela para iluminar alguma história de encantar.
À parte isso, as noites são todas iguais: escuras, frias e cheias de silêncios.

Dina Cruz

15 fevereiro 2009

OLHA QUE BLOG MANEIRO

“Feminino Singular” recebeu o
PRÉMIO "OLHA QUE BLOG MANEIRO"
do blog "Utopie Calabresi"
http://utopiecalabresi.blogspot.com/
.
Indico estes 10 blogs para receber este selo:
.
Histórico-Filosóficas - http://historicofilosoficas.blogspot.com/
Cus de Judas - http://cusdejudas.blogspot.com/
Porto das Crônicas - http://taisluso.blogspot.com/
Blog de Daniel Cristal - http://poetadanielcristal.blogspot.com/
Poesia Crônica - http://poesiacronica.blogspot.com/
8 Segundos - http://delillah.blogspot.com/
A palavra e o canto - http://apalavraeocanto.blogspot.com/
Somente Prosa - http://somenteprosa.blogspot.com/
A Palavra e o Canto - http://apalavraeocanto.blogspot.com/
Assimetria do Perfeito - http://podesmandar.blogspot.com/
.
As regras a seguir para os blogs que recebem este Prémio são:
1- Exiba a imagem do selo "Olha que Blog Maneiro"
2- Poste o link do blog que te indicou.
3- Indique 10 blogs de sua preferência.
4- Avise seus indicados.
5- Publique as regras.
6- Confira se os blogs indicados repassaram o selo e as regras.
7- Envie uma fotografia sua ou de um amigo para olhaquemaneiro@gmail.com juntamente com os 10 links dos blogs indicados para verificação. Caso os blogs tenham repassado o selo e as regras correctamente, dentro de alguns dias você receberá 1 caricatura em P&B.
8- Só é válido caso as regras tenham sido todas cumpridas.

07 fevereiro 2009

Revelação


Voltou-se, convencido de que continuaria o sono que se quebrara. Encolheu-se no calor dormente e artificial da cama de ferro frio.. Cerrou, teimoso, os olhos cansados. Aguardou, impaciente, a torpeza ansiada, mas o silêncio era demasiado atroz para conseguir embalá-lo Morfeu, nos seus braços.

Acordou com o coração pesado e com a sensação de vazio que o acompanhava, há muito, na dolência dos dias e das noites.
Acordou cedo. Muito cedo. Cedo demais…
Vencido, ergueu-se. Autómato, repetiu os gestos quotidianos das manhãs, numa manhã que ainda o não era.
Ao espelho, espreitou-se, deteve-se e observou o azul das roupas, o olhar alienado, a face incolor, a inexistência de expressão que, num frente-a-frente, lhe mostravam a realidade da eterna solidão, a fatalidade do sofrido esquecimento.
Olhou o relógio, como se urgisse o tempo que, afinal, tinha de sobra.
De novo, o silêncio. Ainda a escuridão.
Listou, mentalmente, as tarefas que, gostaria, lhe estivessem reservadas, quando abandonasse a caixa hermética em que habitava, a concha fechada em que se escondia da ausência de emoções.
Organizou, metodicamente, todos os objectos que tocou desde que abandonara a cama, agora fria.
E a noite que teimava em permanecer.
E o silêncio avassalador…
Sentou-se no conforto frio do velho sofá verde, encostou a cabeça para traz e olhou ao alto como se orasse a um deus que o não ouvia. Cerrou os olhos baços e tentou desvendar memórias demasiado desvanecidas para serem desvendadas, desejos ansiados que jamais tivera…
A mesma conclusão de sempre. Só. Desde sempre, e sempre só. Era, pelo menos, o que recordava…
O som agudo do despertador digital quebrou, de repente, o silêncio que o sufocava.
Sete da manhã. Agora sim, era a hora a que deveria ter sido despertado do seu sono. E, afinal, já estava pronto havia uma eternidade…
Ergueu-se do sofá verde para abrir, no gesto costumeiro, as cortinas da janela, que todas manhãs de Inverno, desde havia dezoito anos, lhe oferecia a visão do jardim iluminado, apenas, pela luz amarelada e baça dos candeeiros. Mas, no momento em que as cortinas se afastaram, uma luminosidade inesperada ofuscou-o e inundou todos os recantos do quarto.
A luz que vinha do exterior atravessou-o de forma intensa e quase dolorosa. Sentiu-se atordoado, cambaleou e caiu desamparado numa roda-viva de sensações que não se lembrava de conhecer… Flashes, pedaços de um filme em que era protagonista, peças dispersas de um puzzle que não conseguia organizar, percorriam-lhe a mente confusa. Imagens, palavras, espaços, rostos, momentos dispersos sucediam-se, sem ligação, uns aos outros, mas todos ligados a si…
Rastejou, atónito, até ao sofá verde que lhe abria os braços, como um amigo. Conseguiu sentar-se. Segurando a cabeça entre as mãos trémulas, tentou travar o turbilhão de emoções que o ia enchendo, mas a torrente de pensamentos era cada vez mais forte.
Incrédulo, cerrou com força os olhos, tentando apagar as imagens que se sucediam ininterruptamente, cada vez mais rápidas, mais intensas, mais nítidas… Era como se o toque do despertador tivesse acordado, também, todo o passado perdido que o inundava, agora, intrépido, avassalador, voraz, sôfrego, insistente, aberto, desenhado, claro, verdadeiro, real. Um passado que o revelava e que começava a afastar os fantasmas que o assombravam e a solidão que
julgara ancestral e eterna.
Encostou, então, no sofá, a cabeça para trás e olhou o alto…
Finalmente, reconhecia-se na humanidade. Sabia ser senhor de um passado que lhe abrira o presente e que lhe oferecia o futuro.
O som da chave, que rodou na fechadura da porta, despertou-o do transe. Um vulto branco entrou pelo quarto dentro, sem hesitações:
- Já acordado, José?
Ainda extasiado pela revelação que lhe fora oferecida, não respondeu.
- Pequeno-almoço. Vamos! – e pegando-lhe no braço, tirou-o do quarto e daquele momento de reconhecimento íntimo de uma vida anterior, uma vida...
Percorreu, alheado, o amplo corredor cheio de vultos azuis familiares, mas que não decifrou. Sentaram-no na mesa corrida da sala enorme que cheirava a abandono e desalento. À sua frente, os comprimidos, o leite, as mesmas manchas azuis do corredor…
- Vamos! – disse-lhe o homem de branco.
De um trago, tomou os comprimidos que empurrou com o leite quase frio. E, imediatamente, a mesma pressão no braço…
De novo, o amplo corredor e uma caminhada curta até à Sala Grande.
Pelos cantos esquecidos, cheios de comprimidos e esvaziados de emoções e memórias, vão desfilando outros, vestidos de azul, como ele, que o olham sem ver e sobrevivem, alienados, a mais um longo e solitário dia no Hospício…

Dina Cruz

16 janeiro 2009

Livro de Honra

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga

14 janeiro 2009

Nem sempre sou igual


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Mudo, mas não muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo de sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

Alberto Caeiro

Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho são os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e com a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Para ser grande


Para ser grande, sê inteiro:

nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago
a lua toda brilha,
porque alta vive.

Ricardo Reis

13 janeiro 2009

Vive



Viver é

abrir os olhos
e admirar a linha ténue do horizonte
estender as mãos
e deixar escapar, por entre os dedos,
a areia quente da praia
ouvir o clamor do mar
e adormecer com o murmúrio do vento
sentir o cheiro da terra molhada
e lavar a alma com a chuva que cai
beber cada raio de sol
cada gota de orvalho
cada instante
como se fosse o derradeiro

Dina Cruz

Gustav Klimt


Gustav Klimt nasceu em 14 Julho de 1862, em Baumgarten, perto de Viena. Foi o segundo de sete filhos de Ernst (no caso, o pai), cinzelador de metais preciosos, e de Anne Finster. Em 1876, Klimt ingressou na Escola de Artes e Ofícios de Viena, onde é aluno de Ferdinand Laufberger e de Julius Victor Berger até 1883. Juntou-se ao seu irmão, dois anos mais novo que Klimt, em 1877. Os dois desenhanhavam retratos, a partir de fotografias, vendendo-as a seis florins* cada um. Em 1879, Klimt, Ernest e o amigo Franz Matsch, também pintor, decoram o átriode Kunsthistorisches Museum. Só em 1880, as encomendas do trio sucedem-se: Quatro alegorias para o teto do Palácio Sturany em Viena. Teto do estabelecimento termal de Karlsbad na Tchecoslováquia.
O trio decora a Villa Hermès, em 1885, a partir dos desenhos de Hans Makart, retiro favorito da imperatriz Elisabeth. Em 1886, no Burgtheater, o estilo de Klimt começa a diferenciar-se do de seu irmão e do de Matsch, e então começa a se afastar do academismo. Cada um travalha por sua conta neste ano.
Então em 1888 Klimt recebe a Cruz de Ouro de Mérito Artístico das mãos do imperador Francisco José e em 1890 Klimt decora a grande escadaria de Kunsthistorisches Museum em Viena. Foi premiado pelo imperador (400 florins) pela obra que representa "A Sala do Antigo Burgtheater, Viena". Mas em 1892 seu pai faleceu, vitima de apoplexia*, da qual ele também será vitima. No mesmo ano, seu irmão Ernst morre também.
O ministro da Cultura recusa ratificar a sua nomeação como professor na Academia de Belas-Artes, em 1893. Contudo em 1894 Klimt é incumbido, com Matsch, da decoração da Aula Magna da Universidade.
Klimt recebeu em Antuérpia o grande prémio pela decoração do auditório do teatro do Castelo Esterházy em Totis, na Hungria, isso em 1895. Em 1897 acontece a revolta oficial: membro fundador do grupo dos secessionistas e Klimt acaba sendo eleito seu presidente. Então começa a passar os verões com a sua amiga Emile Flöge, em Kammer e na região de Attersee, onde pinta as primeiras paisagens.
Em 1898 Klimt tem sua primeira exposição da Secessão e fundação pelo grupo do periódico "Ver Sacrum".
Depois teve sua pintura, "A Filosofia", criticada por 87 professores da universidade, em 1900, que rejeitaram-na no momento em que descobriram ela na exposição da Secessão, e então recebe uma medalha de ouro na Exposição Universal de Paris. Um novo escandalo aparece em 1901, na exposição da Secessão. Desta vez são os deputados que interpelam o ministro da Educação a propósito da pintura "A Medicina".
Encontra Auguste Rodin, em 1902, no qual aplaude a pintura "O Friso Beethoven". Em 1903 visita as cidades Veneza, Ravena e Florença. No mesmo ano começa o "Período Dourado". Os painéis para a Aula Magna de Universidade são colocados na Österreichische Galerie. Klimt protesta. Só então houve uma retrospectiva de Klimt no Palácio da Secessão.
Em 1904 Klimt desenha os cartões para os mosaicos murais do Palácio Stoclet em Bruxelas que a Wiener Werkstätte executará.
1905, Klimt resgata ao ministro, os painéis para a Aula Magna. Ele e seus amigos abandonam, então, a Secessão. Logo, em 1907 encontra o jovem Egon Schiele. Pablo Picasso pinta nesse mesmo ano, o quadro "Les Demoiselles d'Avignon".
Expões 16 telas na Kunstschau em 1908. A Galeria de Arte Moderna compra "As Três Idades da Vida" e a Österreichische Staatsgalerie compra o quadro "O Beijo". Logo no ano seguinte (1909) começa a pintar o quadro "O Friso Stoclet". Então vai a Paris onde descobre com interesse a obra de Toulouse-Lautrec. Descobre também o fauvismo: Van Gogh, Munch, Toorop, Gauguin, Bonnard e Matisse, também expostos na Kunstschau.
Em 1910 participa com sucesso na 9ª Bienal de Veneza. E na Exposição Internacional de Roma, 1911, recebe o 1º premio com o quadro "A Vida e a Morte". Começa a viajar a Florença, Roma, Bruxelas, Londres e Madrid.
Em 1912 Klimt substitui por fundo azul (à maneira de Matisse) o fundo de ouro de "A Vida e a Morte". Em 1915 sua mãe morre. Klimt começa então, a usar cores sombrias e suas paisagens tendem para a monocromia. Então, a 1916 participa com Egon Schiele, Kokoschka e Faistauer na exposição do Bund Österreichische Künstler na Secessão de Berlim. Morre no mesmo ano Francisco José, dois anos antes do desmembramento do seu império.
Inicia "A Noiva" e "Adão e Eva". É eleito membro da Academia das Belas-Artes de Viena e de Munique.
A 6 de fevereiro de 1918, Klimt morre de apoplexia. Inúmeras telas ficaram inacabadas. A queda do império e o nacimento da Republica Alemã da Áustria e de seis Estados que daí resultam. Morrem no mesmo ano: Egon Schiele, Otto Wagner, Ferdinand Hodler e Koloman Moser.

05 janeiro 2009

Caverna de mim



Em mim

Mergulhei
Profundamente
Vertiginosamente

Perscrutei escombros
Violei segredos
Vislumbrei memórias
Ancestrais

Guardados
Arrecadados
No armário das vergonhas
Descobri
Sorrisos secos
Lágrimas inertes
Abraços amargos
Palavras vazias de significado
Beijos vazios de significante
Estilhaços
Retalhos
Pecados
De mim

Amargamente
Religiosamente
Fechei o sarcófago
Da múmia
Que se desfez

Que se fez

A cada sorriso
A cada lágrima
A cada abraço
A cada palavra
A cada gesto
A cada beijo
Que arremessei
Ausente
A cada um de vós

E segui
Verdadeira
Ao sabor do vento e das marés…

Dina Cruz

Afinal, no deserto, ainda há flores...

Dias há...




Dias há

Em que esvoaçam
Em mim
Borboletas tecidas de luz

Dias há
Em que laços de seda
Se me desatam
Suavemente
Na alma

Dias há
Em que todas as estrelas
Em que todas as brisas
Em que todas as gotas de chuva
São minhas

Noutros
Corvos soturnos
Me cegam de negro.

Dina Cruz

Palavras ocas




Fraco é o sol

Que não aquece

Fraco é o vento
Que sopra em vão

Fraca é a chuva
Que não mata a sede

Fraca é a lua
Que não ilumina

Fraco é o trovão
Que não ressoa

Fraca é a palavra
Que soa alto
Mas não se faz ouvir…
Mas não se quer ouvir…

Dina Cruz

Vós




Desço ao fundo dos vossos dias

E arrumo
Em pensamentos desordenados
As vivências impolutas
Dos vossos acasos propositados

É penoso
Não ter memórias
Não ter temores
Não ter insónias

É penoso
Não ter segredos
Não ter degredos
Não ter grinaldas de flores

É penoso
Ser um
E nenhum mesmo tempo

É penoso
Herdar propósitos inusitados
De retalhadas recordações

É penoso
Deambular pelos dias
Apagado
Pálido
Insosso
Aguado

É penoso não ser!!!

Dina Cruz

Tudo-Nada

Do ventre da terra
Nascem dias cinzentos
De escuridão e ausência
Solta-se o negro das almas
E escorrem
Das mãos
Os ódios e raivas do passado

É manhã!
E do cume dos montes
Resvala uma luz tépida e mole
De pretenso viço

Nada cresce
na aridez dos penhascos
Nada vive
Na solidez do monte
Nada se ilumina
Na solidão dos homens
Nada permanece
Na podridão dos dias!

Tudo perece…
Tudo fenece…

Dina Cruz

Dantes, as estrelas...




Dantes, as estrelas costumavam estar tão perto... Estavam a um estender de mão... À distância de um olhar, de um sorriso... Bastava abrir os olhos, ou mesmo sem os abrir, estavam ali... Sentia-as na pele como se sente o toque macio da brisa, no Verão, ao entardecer...
Era tão simples alcançá-las e arrumá-las todas dentro de mim, uma a uma...
Aqueciam-me por dentro e iluminavam cada momento dos meus dias, das minhas horas, boas ou más...
Era o tempo dos sonhos e dos sorrisos abertos e francos, de quem tudo espera, de quem tudo deseja, de quem confia tudo alcançar... mesmo as estrelas...
Era o tempo dos olhares limpos e claros como as gotas de chuva que escorriam na vidraça e que eu imaginava chorarem por não serem como eu – despida de lutos e tristezas, de desilusões e melancolias, de arrependimentos e angústias, de anseios ou sonhos por cumprir.
Agora não chove, mas, a maior parte do tempo, sinto essas gotas de chuva escorrerem, não na barreira transparente da vidraça, mas em mim... E arrefecem-me. E apagam a luz que as estrelas me ofereciam quando estavam perto... a um estender de mão... à distância de um olhar, de um sorriso...
Fecho os olhos. Abro os olhos. Volto a fechá-los, mas já não as sinto... já não estão ali...
E dentro de mim, a noite é escura e fria.
E fora de mim, a noite é escura e fria.
E o meu sorriso já não tem a franqueza dos sonhos, do amanhã ansiado, do poder de dar a volta ao mundo em cada gesto...
E o meu olhar já não alcança nada, para lá da vidraça...

Dina Cruz