24 abril 2020

O DIA DA LIBERDADE,
José Jorge Letria

“Este dia é um canteiro
com flores todo o ano
e veleiros lá ao largo
navegando a todo o pano.
E assim se lembra outro dia febril
que em tempos mudou a história
numa madrugada de Abril,
quando os meninos de hoje
ainda não tinham nascido
e a nossa liberdade
era um fruto prometido,
tantas vezes proibido,
que tinha o sabor secreto
da esperança e do afeto
e dos amigos todos juntos
debaixo do mesmo teto.”
SOL

Os dias de sol
São infinitamente melhores
Que os dias de chuva.

Em dias de sol,
Largo o olhar ao céu
E sinto-me grata ao Universo
Pela bênção de pertencer aqui.

A chuva humedece tudo.
Hemedece os dias, a alma e os olhos...

Gosto do sol
E das gotículas de orvalho que brilham
Como estrelas
Nas ervas do caminho.

É como se houvesse dois Céus...

Gosto das danças dos pássaros
E das melodias caprichosas
Que dedicam uns aos outros.

Gosto do calor no corpo
Do azul no alto
Da distância que alcanço com olhar...

Os dias de sol
São definitivamente melhores
Que os dias de chuva!



22 abril 2020

SEGUE O TEMPO

Alongam-se os dias cinzentos...
As nuvens passeiam, dolentes,
Escondendo o infinito azul...

A primavera segue, intrépida,
Como menina em devaneios
entre as papoilas e searas...

Ao longe,
O vapor que escorre pelas colinas
Encobre verdes exuberantes de vida...

E eu,
Por detrás desta cerca invisível,
Vejo o tempo escorrer-me pela alma
E anseio caminhadas pela praia...






21 abril 2020

METAMORFOSE

Da opacidade da tarde,
atiram-se os olhos aos dias que passam,
cinzentos e lúgrubes
moles e desencantados,
pelas janelas das casas...

No casulo inerte,
acalento esperanças
de asas que virão
cheias de cores e brisas e luares...

Não tardará,
poderemos atirar-nos ao vento
e escutar o cântico das marés
de pés descalços na areia
de pele desnuda sob o sol ardente
de abraços desmedidos e tão grandes
que caberá neles
toda a secura destes dias
e toda a saudade que no come.


20 abril 2020

Esperança


Arrastam-se, serenos e calmos, os dias imensos.
Lá fora, por entre as conversas das aves
e o murmurar verde da floresta,
alma alguma percorre os caminhos...

Se o céu falasse,
diria que o fim chegara...

Por entre o musgo verdejante das pedras,
corre, alegre, o riacho cristalino
alheio ao silêncio e à solidão
dos trilhos abandonados de gente...

Se o céu falasse,
diria que o fim chegara...

Mas não fala o céu!
Falam as almas nossas
que exultam na esperança...
E esse grito é de vida!


29 abril 2011

Na berma dos dias...


Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.


É assim que começa a morte.
É assim que se dá início à vida vazia de coisas grandiosas.
É assim que nos fazemos parte do rebanho, do bando, da multidão.
É assim que deixamos de nos pertencer.
É assim que alguém nos possui e nos encarcera a alma.
É assim que deixamos de ser gente a sério, com ideias e ideais, com pulsações e inquietudes, com revoltas e cansaços…
É assim que nos entregamos ao desaire e às anestesias dos outros… daninhos e corrosivos.
É assim que tornamos pálida, a fraca alma que deixámos de possuir e que entregámos a um demónio devastador e guloso de sonhos…

Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Quantas vezes não acordou com o raiar da manhã e se entregou à frescura do orvalho num abraço fraterno com a Natureza?
Quantas vezes não se deixou embalar pelo vento fresco e lenitivo de uma tarde quente de verão, na loira seara?
Quantas vezes não se deixou emprenhar pelo cheiro quente da terra acabada de beber a água das primeiras chuvas?
Quantas vezes se ofereceu inteiro aos raios de luar em noites cristalinas e plenas de estrelas?
Quantas vezes ofereceu o seu doce sorriso às flores às árvores do bosque cerrado?

E agora…
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Fechou-se.
Encolheu-se.
Enrolou-se.
Apagou-se.
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Dina Cruz

Quatro paredes pintadas de rosa...

Era uma sala enorme de paredes rosa-pálido. Pálido. Como os dias que ali se arrastavam moles e desertos de sorrisos.

Nas inúmeras mesas individuais, escondiam-se rostos inertes em frente dos ecrans quadrangulares dos computadores abertos à dolência das manhãs e das tardes sonolentas… O tic-tic das pontas dos dedos tocando as teclas frias dos aparelhos lembrava melodias de cigarras e despertava vontade de cigarros.

Era uma repartição como tantas outras, onde alguns trabalhavam a metro, outros a milímetro… Ali se teciam novelos inenarráveis de papéis para reciclar. Relatórios de relatórios eram produzidos a uma velocidade estonteante de delírio. Grelhas e grelhas e grelhas eram preenchidas, sem dó nem piedade, com algarismos e dados que nasciam do tudo e do nada.

Uns atrás dos outros, em quatro filas quase intermináveis, os trabalhadores fixavam-se nas folhas brancas que se acumulavam em molhos por cima dos móveis repletos de documentos imberbes.

Era o caos organizado.

Era o delírio colectivo.

Era o tédio visceral.

Era o esquecimento da vida.

Era o sol que se vislumbrava no alto da sebe do pátio recto, empedrado, castrador…

E o tempo parado, atrasado, relapso…

E o fim do dia que não chegava nunca.

E os quinze minutos para um café sôfrego e nervoso.

E a rubrica na folha gasta de papel, à entrada e à saída. À entrada e à saída…

E a dor no fundo das costas. E a cabeça a estoirar. E os olhos a arder de cansaço. E o ar que faltava. E o alento que faltava. E a vontade que partira há muito…

Lá fora…

Lá fora o mundo!

O mundo todo numa folha de papel aberta às mais ansiadas aventuras e ilusões. E eram moinhos. E eram gigantes. E eram batalhas. E eram passeios abandonados em bosques com cheiro a água, a pedras e a rosmaninho. E eram bandos inteiros de andorinhas. E eram nuvens, cavalos, bisontes, girafas e leopardos. E eram meninos jogando à apanhada e às escondidas. E eram flores e frutos perfumados de polpa doce e sumarenta. E eram praias de areia branca e quente a perder de vista. E eram oceanos de profundo azul em espirais de espuma, água, sal e maresia. E eram ilhas perdidas sob o céu repletas de palmeiras. E eram noites de delírio e som e cores servidos em copos altos com guarda-sóis de papel. E eram danças, corpos nus e desvario à luz da lua e ao som do mar. ..


Dina Cruz

25 novembro 2010

E este nó na garganta
que me sufoca esse grito...

E esta secura na boca
que me não solta o sorriso...

E estas correntes nas mãos
que me encarceram ao escuro...

E esta névoa na alma
que me tapa o horizonte...
que me não deixa ver o sol...

Dina Cruz

28 junho 2010

Anjo Negro

Dantes tudo era azul…
De um azul claro e luminoso que nos enchia a alma e nos abria o sorriso a cada gesto
Eram tempos de cores quentes e aromas frutados
De sóis amarelos e luas cheias de estrelas
Eram tempos de marés-cheias e de frescas maresias vestidas de verde e espuma
Eram campos e campos de papoilas onde dormiam, serenos, os pirilampos
Eram chuvas mornas e límpidas que roubavam aos montes o cheiro da terra
Eram searas de ouro e de pão maduro prenhes de vida
Eram gargalhadas atiradas ao vento como sementes
Eram vocábulos cintilantes da cor das alvoradas
Eram hinos celestiais
a cada abraço,
a cada beijo,
a cada lágrima, até
a cada riso…

Agora
O silêncio
A dor
A amargura
O peso infindo nas almas sem cor

Um anjo negro ensombrou-nos os dias.
Um anjo negro eterniza-nos as noites.
Um anjo negro encerrou-nos a alma
E as palavras
E os sorrisos
E os beijos

O anjo negro levou-nos o sol.
O anjo negro levou-nos a alma
E a maresia
E as searas
E as praias
E os ventos
E os campos
E as flores
E a chuva
E as borboletas
E as papoilas
E os pirilampos
E as vontades
E os desejos
E a esperança

O anjo negro desfez-nos nos olhos amarguras
O anjo negro desfez-nos nas almas esperanças
O anjo negro cobriu-nos a face de sombra e alma de desalento

Reina, agora, a escuridão.
Fora e dentro de nós…

Dina Cruz

25 março 2010

Cabelos pretos

Cabelos pretos…

Agora
Em meio deste vento (não espero por ti não esperarei mais por ti…)
Quero agarrar ventos que te sopram do poço
Quero segurar terras e caminhos
Sorrisos…
Os teus doces pretos cabelos pretos

Flutuando belos (não espero por ti não esperarei mais por…)
As raízes da tua voz ()
Agora
Que do poço
Raiam auroras
Rasgam em mim
Os humores do teu peito

Ficas entre mim
E esse vento
Esse oceano de tempo e de saudade
Vidas
Outras vidas
Ventos que te sopram do poço
E te incendeiam sem parar…
Numa mortalha bela e louca do vento que te propaga do mar que te navega…
e
(Espero por ti não esperarei mais por ti guio-me de ti, curo-me de ti...)

Rocamadour

22 março 2010

A borboleta que arranca a vida

Enquanto ela fervilha e alcança
A acácia negra habita os céus e estranha a doença
Ela não foge nem alcança – ((a vida é só um imenso salpicar de areia saltando da cachoeira))
Essa negra erva que galga esse delírio;
Esse colírio;
Esse pequenino pardal;
Asas puídas de um papel às cores (das minhas barbas ouço que se me rasgam as saias)

Como será possível deitar-se perdidas umas flores tão belas?
Onde foste buscar esse sorriso ?
E as tuas negras saias de folhos…
(Auroras verdes azuis culminando o vazio saltitando ao frio)
Por enquanto bordadas a linho!
Adiante, na berma do carreiro
Ao fim da noite
Um pedaço de calor te tocará
O ventre! (meu inteiro! como eu quero esse ventre quente esse suave ausente…)

Serás um chorrilho de água e um moinho de pedra molar
(habitarás insana uma pedra inculta! Uma muito longa noite…)
Olvidarás uma framboesa selvagem
Erguendo o vazio
Desses olhos de águia…

Despencará às loucas pelo céu acima
O azul celeste da borboleta que arranca a vida…

Rocamadour

Farol

Ao fundo da tua rua há um farol
Haverá sempre um farol...

Porque há palavras que te brotam da alma
com a força das correntes
que nunca te agrilhoarão
nem voz
nem pensamento

Porque és de betão
de rocha dura
de cristalino diamante

Porque o farol és tu

Dina Cruz

16 novembro 2009

Diário


Março 9


O Poeta beija tudo, graças a Deus... E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade... E diz assim: "É preciso saber olhar..." E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos... E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás...
E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha... E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso... E acha que tudo é importante... E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim... E reparou que os homens estavam tristes...E escreveu uns versos que começam desta maneira "O segredo é amar...".
Por tudo isto é que eu fiz a Semana da Poesia. Por tudo isto e porque de pequenino é que se torce o pepino. Por falta dela nas antologias escolares, ou só pela presença de Correias de Oliveira, Azevedos Castelo Branco e mais da mesma firma, é que os rapazes chegam a homens com uma má vontade à Poesia ou uma ignorância dela que confrangem um cristão. É preciso, subtilmente, deitar-lhes no sangue este veneno - não tanto para que gostem de versos ou saibam versos de cor, como para que olhem o mundo através da janela da Poesia, para que beijem tudo, graças a Deus, para que saibam olhar, para que reparem nas flores e nas ovelhas. Isto é que se quer que eles façam, sem respeito humano, pela vida fora. Digo "sem respeito humano", porque é fora de dúvida que a maior parte de nós, Portugueses, temos cá dentro um impulso que nos levaria a fazer tudo ou quase tudo que fazem os Poetas, se não fosse um receio de parecer menos viril. A gente tem vergonha de beijar tudo, de amar as flores, de se enternecer com os animais, de dar um passeio. Se beija uma árvore, é parvo; se traz uma flor na mão, é maricas; se se enternece, é fraco; se acaricia uma menina, põe nessa carícia o sexo; se vai a qualquer parte para passear e ver o mundo, faz constar que foi em viagem de estudo ou viagem de negócios. Temos vergonha de ser sinceros, de que nos creiam parvos, ou maricas, ou fracos, ou lúbricos, ou estroinas. E então perdemos o melhor da nossa vida a ludibriar os outros e a insultar as nossas intenções mais belas e generosas. Ó Portugueses, é tempo de torcer o pescoço ao respeito humano. Olhai que nós somos bons e talvez seja verdade que somos poetas - e isso não deve ser desprezado, mas antes manifestado. Começai a ser sinceros, deixai de ser irónicos, e vereis como tudo corre melhor e a vida tem outro sabor!
Eu não quero "impingir" versos aos meus alunos: quero abrir-lhes a janela da Poesia, para que não se dê tempo a que também entre neles o respeito humano. Ouvindo ou lendo versos, verão logo de princípio que é natural um homem amar as flores - e amarão as flores com naturalidade. É tão raro, entre nós, um homem dizer em voz alta que ama as flores (...).
Por tudo isto e porque de pequenino é que se torce o pepino, é que eu fiz a Semana da Poesia. Para começar, enchi uma aula de versos lidos por mim. Ao escolhê-los, fiz o possível por excluir coisas mórbidas ou tristes - o que é bem difícil de realizar com a nossa Poesia - e procurei trechos simples, de preferência descritivos, porque seriam de mais fácil compreensão. Em quase todos a nota dominante era o encantamento - ser Poeta, tinha eu pensado dizer-lhes - é estar encantado ou desencantado e contá-lo com palavras que pareçam música. E a todos os impunha a beleza formal, a que eu olhei também: as coisas boas têm de ser ditas com bons modos e esta aula era uma primeira oferta que eu gostava que fosse aceite.

SEBASTIÃO DA GAMA
in DIÁRIO

10 novembro 2009

Jogo da Macaca

Tocou o despertador. Seis e quarenta e cinco… Noite ainda. Escuridão no pequeno quarto. Sono. Preguiça. Dolência. Demasiada escuridão lá fora. Mais uma vez, não conseguira adiantar-se ao nascer-do-sol. O sol nascia sempre depois dela. A noite, essa, quando ela…
Demorou ainda. Encolheu-se e apreciou, mais um pouco, o torpor morno da cama larga. Sono agitado, turbulento, cansativo, desgastante… Olhos fechados, apenas… No escuro do quarto, as noites eram dias. Olhos fechados. Dias inteiros. E os dias, esses, por vezes noite. Saiu da cama, bela adormecida ainda.
Despiu, desajeitada, o pijama. Flores espalhadas pelo chão. Retalho ínfimo de Primavera…
Olhou de soslaio o espelho e parou por instantes. Olheiras. Eternas. Perpétuas. E rugas. Fininhas. Rugas.
A água caiu sobre o corpo ainda quente de cama e sono. Chuva tropical… Tépida cascata nos meandros da selva… Olhos fechados. O poder de fazer cessar a chuva e a torrente da cascata. Secou o corpo com o branco macio da toalha de algodão. Nuvem. Neve. Fumo. Neve no chão frio. Gotas de chuva nas costas. Um pomar de laranjeiras espalhado pelo corpo num gesto automático e inconsciente.
O espelho, de novo. Creme. Base. Rouge. Sombra. Eyeliner. Olheiras. Eternas. E rugas. Fininhas. Rugas. Uma por cada lágrima. Uma por cada sorriso. Uma por cada alegria. Uma por cada desgosto. Uma por cada aventura. Uma por cada amor. Cada uma dela. Todas dela… Ansiadas. Desejadas. Dela, todas.
Meias pretas. Vestido preto. Sapatos pretos. Baton. Casaco? Vermelho. Cravo. Papoila. Sangue. Rubi. Sangue. Vida.
Abriu e fechou a porta do frigorífico. Leite. Simples. Frio. De um gole. E café. Forte, curto, amargo. Saiu.
Acendeu o vermelho. Era para peões. Peças de xadrez em história aos quadradinhos. Verde. Calcou o acelerador. Seguiu. Acendeu um cigarro distraído e sorveu-o lentamente… De vidro aberto. O ruído da cidade lá fora. O rádio. Passou pelos lugares do costume. Deixou abandonado lugar de estacionamento habitual. Seguiu. Seguiu em frente. Alheia à cidade que fervilhava de cheiros, cores, ruídos… Em direcção ao mar…
O mar. Imenso azul. Misterioso. Infinito. Lar de sereias e monstros marinhos. Lendas. Mitos. Marinheiros e piratas. Castelos de areia. Melodias de búzios. Estrelas sem luz. Conchas. E o murmúrio embalador das ondas na areia macia da praia. E aquele cheiro salgado e fresco. O odor de terras longínquas e desconhecidas. De ilhas desertas. De glaciares montanhas brancas mundos de fadas e anjos… Sapatos pretos perdidos na areia. Os pés descalços na frescura das ondas. O sabor a sal nas mãos, nos lábios… O corpo enrolado numa vaga. A areia a picar-lhe a pele. Uma força a seduzi-la, a levá-la. E o sal a entrar-lhe na boca, nos olhos, nos poros da pele… Sabor de vida. Sabor de morte. Um turbilhão de histórias. De memórias. De desejos. De anseios. Lá atrás, a cidade que já não via nem ouvia. Só o mar… O mar e os seus pensamentos e toda a sua vida passada… Mais do que isso, silêncio… Um silêncio devastador, reparador, assustador, avassalador… No meio das vagas, do sal, do azul profundo…
Um ruído longínquo entrou-lhe, mansamente, pelos ouvidos. Um grito. Um choro. Um gemido. Um suspiro… Um som que a ergueu do meio das ondas e lhe secou a pele e as lágrimas de sal. Uma voz que a despertou daquele sonho negro e azul. E foi-se o sal, a água, a areia, o azul, o ruído monótono e seco da cidade.
- Mãe…
E o mundo inteiro a entrar-lhe pelo quarto dentro. Todos os raios de sol ali. Todas as fases da lua que era sua. O mar inteiro a refrescar-lhe a alma…
-Mãe…
Acolheu-a no pequeno jardim do seu pijama-Primavera de flores. Afagou-lhe o cabelo e beijou-a ternamente num abraço de sol e sal e mar e estrelas e aberto luar. E ficaram as duas enroscadas num beijo quente de fusão perfeita.
- Sim, meu amor…
- Ensinas-me a jogar à macaca, mãe?
-Ensino, amor. Se ainda me lembrar…
E no calor terno do ninho, jogaram as duas... Salto, salto, salto, volta, salto, salto…
Mar, ondas, espuma branca, areia macia, sal no corpo, nas mãos, nos lábios, nos olhos. Sal na vida. Sal da vida.
Salto, salto, salto, volta, salto, salto, volta…
Mulher menina. Menina mulher. Mulher menina mãe.

Dina Cruz

05 novembro 2009

Prémio BLOG INSTIGANTE

Foi com agrado e orgulho que vi distinguido o Feminino Singular com o prémio "Blog Instigante", da parte do "Histórico-Filosóficas".
O selo destina-se a premiar, e cito:
“ Blogs que, além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.”
Sinto-me extremamente agradada com esta oferta e deixo o meu agradecimento ao autor de "Histórico-Filosóficas", um blog verdadeiramente INSTIGANTE.
Bom, também é pedido que o reenvie a outros sete blogs, e é isso que farei, convicto que é esta a parte mais dificil pois muitos dos que não serão designados mereceriam ser escolhidos:

http://cusdejudas.blogspot.com/

http://ericamachado-drika.blogspot.com/

http://poetadany.blogspot.com/

http://pesponteando.blogspot.com/

http://2beloste.blogspot.com/

http://poemar-te.blogspot.com/

http://yeacklemon.blogspot.com/

27 outubro 2009

Diálogo solto na berma dos dias...

Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

- É assim que começa a morte.
- Encara-a como uma vida alternativa um outro caminho um.

- É assim que se dá início à vida vazia de coisas grandiosas.
- Na vida vazia dela, por dentro dela dessa vida vazia outros mundos outros sonhos por dentro da vida outra vida… Sabias? Por dentro da vida outra vida. Mudo por ti. Mudo para ti. Mudo para que tu saibas…

- É assim que nos fazemos parte do rebanho, do bando, da multidão.
- Desprezas o leão e essa é a tua mais temida faceta. A que eu mais gosto.

- É assim que deixamos de nos pertencer.
- Ninguém deixa de se pertencer – apenas escoiceados e vilipendiados… mas não faz mal… tens toda a razão do mundo… deve é faltar-te mundo… outra vida… escolhe outra vida…

- É assim que alguém nos possui e nos encarcera a alma.
- Não há machado que corte a raiz do pensamento…

- É assim que deixamos de ser gente a sério, com ideias e ideais, com pulsações e inquietudes, com revoltas e cansaços…
- Não escolhas outra vida não traias a vida quer és! Não sejas de outro mundo… não queiras ser outra flor…

- É assim que nos entregamos ao desaire e às anestesias dos outros… daninhos e corrosivos.
- Sabes… não sei se valerá a pena enfrentar os outros daninhos e corrosivos – “para quê estar sempre a mostrar ao parvo que é parvo”.

- É assim que tornamos pálida, a fraca alma que deixámos de possuir e que entregámos a um demónio devastador e guloso de sonhos…
- Há um exército de pálidos e de enxovalhados. Esses são os mortos horríveis. Há vida para além da morte. Há vida além da noite. Já uma vez te chamei flor acobreada de luz…

Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Quantas vezes não acordou com o raiar da manhã e se entregou à frescura do orvalho num abraço fraterno com a Natureza?
Quantas vezes não se deixou embalar pelo vento fresco e lenitivo de uma tarde quente de verão, na loira seara?
Quantas vezes não se deixou emprenhar pelo cheiro quente da terra acabada de beber a água das primeiras chuvas?
Quantas vezes se ofereceu inteiro aos raios de luar em noites cristalinas e plenas de estrelas?
Quantas vezes ofereceu o seu doce sorriso às flores ao sol às árvores do bosque cerrado?

E agora…
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.

Fechou-se.
Encolheu-se.
Enrolou-se.
Apagou-se.
Fechou os olhos secos de lágrimas e adormeceu na berma dos dias.


Para além da morte morte há uma outra morte. A morte em vida. É do cunho da renúncia! É do cunho da inveja. É do cunho da ingratidão. Sabe ao que sabe a solidão. Não terás nunca direito a uma morte dessas. Se há sempre uma vida há sempre uma luta. Há sempre um campo de feno e uma casa por construir. E um livro para escrever. Há sempre uma linha mais para onde possas correr. Ou andar. Saltitando como Mariana… Serás sempre Mariana… Enrolada em cor… Tímida e temida. Texto inacabado.


Dina Cruz e Nuno Monteiro

25 outubro 2009

Baobá mulher!


De África chegam-me vozes de terra e de calor… De tristeza e fome… de seca e de angústia… de sonho e solidão…

Baobá mulher chora de pena!
Chora de dor!
Chora de luto.
Do luto negro e fundo de quem perde, um a um, seus filhos, seus homens, seus irmãos…

Nas suas curvas tortas e retortas, esconde o medo e ânsia, a sanzala e o xicote, o suor e o velho tronco, o minino e o pó do terreiro, a carapinha e os búzios, o batuque e a catinga...
E oculta a força e a coragem.
Esconde a savana e seus leões…
E Alimenta!

O Pequeno Príncipe que não tema a baobá… O seu asteróide está seguro. No seu asteróide estará seguro.
A baobá não se dá longe da terra que é a sua, que é o seu leito e sua imensidão e seu túmulo…

É mágica a baobá mulher!
Lua de poetas e eremitas, habita neles em lendas e poemas de flores perenes, de folhas feiticeiras, de frutos curativos, de troncos vivos e húmidos, de elixires de juventude e de vida…

No meio da planície, espalha-se gorda e dolente pelo capim doirado… enrosca-se em contornos fantasmagóricos de cabeleira desalinhada pelo vento quente, espraia-se muda, entrega-se virgem, despede-se, ousada e desejada.

Numa noite à sua escolha, coberta por um lençol de brancas estrelas e sob a luz de uma lua opaca como leite, parirá!
Abrir-se-á de matizes e de aromas insondáveis. Explodirá de vida, em sufoco de saudade e de desejo.
E será flores...
Tantas flores quantas estrelas há no céu.
E virão beber-lhe o néctar nocturno, os seres mais escuros da savana,
os que, cegos, lhe sentiram, à distância o odor,
os que, surdos, lhe ouviram os gemidos e os ais,
os que mudos, quererão cantar-lhe a liberdade e a vastidão…

E, no mar que tem dentro do peito, deixará navegar o universo inteiro…
E matará a sede a quantos se aproximem.
E curará os males mais infames.
E será lira e batuque e ocarina…
E será colher e taça e alimento,
E será mãe e mulher e árvore
E será útero e colo e seio e ventre
E dança e tela e escultura e poesia…
Será como é... Será o que é... Baobá mulher!

Dina Cruz

20 outubro 2009

Variações sobre O POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO de Alexandre O'Neill

Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.

Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.
Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor).

Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).

Manuel Alegre

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O'Neill

15 outubro 2009

Vamos dormir, Mãe...


Porque sempre haverá meninos pendentes na beira da ponte deitando suas lágrimas ao vento, escrevo agora. Grito. Sufoco. Blasfemo. Escarneço.

Não estivessem as estrelas no céu na companhia da lua, e arrancaria de mim um grito de nojo, e cuspiria venenos sobre a boca pérfida dos despojados de vida, num urro! Num coice!

Mas há estrelas no céu… e luares lenitivos de camélia branca… E homens que são meninos de olhos esbugalhados e ânsias desmedidas e sonhos sonhados e por sonhar…

Mãe, sufragada de trabalho, ainda tenho que ouvir rugir esse incontrolável patronato…

Não chores, menino, as minhas lágrimas…
Lágrimas são dores, são flores, são pedaços d’alma que se evolam na distância dos olhares… são sorrisos húmidos com sabor a sal e sol… são do homem! São do Homem!
Sossega e dorme. Tens, no meu colo, todas as distâncias, todos os lugares, todas as estrelas do mundo… é meu colo, teu berço e teu segredo. Teu abrigo e teu desejado cárcere.
Sossega e dorme. Sonha.

E quando o vento tiver secado as lágrimas que choras e te alçares ao vento, será para voares em sonho alado de liberdade etérea.

O teu mundo não é esse teu patrão, Mãe! A tua vida não é a tua produção, Mãe!
Que não te arda o peito, a não ser por mim, Mãe.
Por ti, Mãe!
Por nós!

PORQUE:

A fábrica é uma pança gorda, mas é um meio.
A fábrica não é um fim.
A fábrica é uma ínfima parte… uma insignificante parte…
A fábrica morrerá de fome! Morrerá! De fome! Morrerá!

E tu, meu filho.
E eu, meu filho.
Um quarto. Um chão. Uma vela.
Um menino no berço. Um sorriso. Uma flor. Uma estrela.
O luar escancarado que entra pela janela e pela alma dentro.
Um beijo. Uma carícia.
Uma cantiga antiga relembrada e aquecida pela memória de infâncias olorosas de nuances doces e coloridas
Um cheiro quente de terra molhada que nos entra nos poros e nos enche os sentidos.
Uma gota de água a escorrer na vidraça. Uma lágrima-pétala a escorrer pela face.
Um sorriso doce a escorrer pelos lábios. Um amor infindo que escorre de mim e se espalha, pelo chão, à luz da vela, à tua luz, na tua luz…

Sombras trémulas de pequeninos fantasmas longínquos esvaem-se em finos fios de fumo fugaz! E tu… E eu…

Ergo os olhos para a montanha e oferece-se-me o horizonte claro e infindo de sonhos por cumprir… para cumprir!
Voarei! Voaremos sempre! Juntos! Voaremos enquanto deixarmos a luz irromper por nós dentro como a toada do gongo!

E posso tudo contra a faca que corta a morte… que corta de morte!
Porque sou mãe.
Porque sou mãe e guerrilheira!
Porque sou mãe e madrasta e amante e companheira e presa e predadora e abutre e gaivota e gume de adaga e língua de serpente e caixa-de-música e gongo retumbante e veneno mortal e antídoto secreto e mulher…
E mulher!
E mulher!
Que engana Deus e o Diabo!
Que cala dores de parto, de desvaire, de ciúme, de paixão, de orgasmo…
Que rasga caminhos por amores singulares, que se deita na areia da praia para ser beijada pelo sol ardente, que se despe de pudores para se deixar iluminar pela branca lua, que se abre inteira ao amor do seu homem, ao amor dos seus filhos, em absoluta entrega…

E que se esventra, se revolve, regurgita, escarra, espezinha, amachuca, esfaqueia, dilacera, escarnece, cospe, fulmina, destrói…

Ai de quem ousar macular esse quarto! Esse chão! Essa vela… Essa luz! Essa tua luz!

Então, Mãe… Vamos dormir?

Vamos, meu filho! Vamos, que é noite já.